Aquela seria apenas mais uma matéria sobre o Campeonato Gaúcho 2008. Seria. Mas antes de saber um pouquinho da história do “Joy” – que motivou até uma comunidade no site de relacionamentos Orkut - é preciso voltar uma semana atrás.
O almoço
Uma hora para almoçar é complicado, convenhamos. Você chega atrasado, ou seja, perdeu o almoço com a família. Os pequenos já têm que ir para o colégio. Afinal passa da uma hora. Mesmo assim, aquele início de tarde se mostrou diferente. O seu Adair Seixas, marido de minha mãe, sentou-se, como sempre, ao meu lado – apesar de ambos estarem sempre correndo contra o relógio naquele horário – para conversarmos um pouco. Desta vez, era uma história especial, diferente. Quando ele começou a contar um pouco da vida do Jhonathan, de dez anos, eu nem sabia se gostaria de almoçar, ou tentar achar a melhor forma de contar aquela história.
Quando minha mãe, Maria da Luz, retornou da escola, onde havia deixado a minha irmã, o conto continuava. Um clima especial de emoção tomou conta da cozinha de paredes brancas, com uma mesa de vidro ao centro e quatro cadeiras. A comida já havia sido retirada. Meu almoço ficava servido em um prato dentro do microondas. E nós, mãe e filho, prestávamos atenção a cada detalhe da história do garoto.
Vida curta e de luta
Certamente muitas crianças, adolescentes, adultos e idosos devem ter uma história de luta contra o câncer como Joy. E é exatamente por isso que a vida dele representa um pouco de cada uma das vidas de quem luta contra esta doença.
Seu Adair começou contando que o garoto estava em uma Associação de Pessoas com Câncer, em Pelotas, quando um de seus amiguinhos acabou perdendo a luta para o câncer. Colorado como Jhonathan, o garoto não tinha um fardamento do Internacional. Mas Joy tinha. E cedeu para o que pequeno companheiro pudesse partir com o uniforme do clube de coração destes pequenos/grandes guerreiros.
Na luta de Joy foram muitas quimioterapias, cirurgias, ansiedade dos pais e uma amputação. Com menos de dez anos de idade o garoto acabou perdendo uma das pernas. Para um apaixonado por jogar futebol com os amigos seria o fim das partidas a qualquer hora do dia. Para ele, não.
De volta ao trabalho
Depois do almoço cheguei à redação, em Pelotas. Contei um pouco da história para os colegas e disse que a contaria em uma matéria antes do jogo. E mais, tentaria ajudar o garoto a realizar seu sonho: assistir uma partida do Inter.
Era semana de grande jogo no estádio Bento Freitas. Brasil, de Pelotas, e Internacional, de Porto Alegre. Os ânimos das torcidas estavam acirrados. O Inter vinha com bom futebol; o xavante buscando a reabilitação. E o Joy querendo assistir ao jogo. Liguei para os pais do garoto e acertei de gravar a matéria – com meu grande amigo e cinegrafista Leonardo Silva – no dia seguinte.
Porém, a luta para realizar o sonho do garoto foi mais árdua do que pensei. Um dos colegas ligou para a diretoria do Internacional. Disse-me ele: “a diretoria do Inter não aceitou”. Falou isso, pois, havia pedido para que ele tentasse com que Joy entrasse em campo com o Internacional.
Mas no dia seguinte, o da matéria, eu tentei mais uma vez. Uma negativa. Duas. Só que eu conseguiria. Sabia que não era impossível. Foram seis ligações. Seis! Só aí um dirigente afirmou que sim, seria possível o garoto entrar em campo com o clube. Bastava a diretoria do Brasil aceitar. A partir daí eu estava em casa; sempre tive um ótimo relacionamento com os três clubes profissionais de Pelotas. Desta vez foi uma ligação.
Grande garoto
Partimos para a matéria, o Leonardo e eu, sabendo que esta matéria já começara diferente. E continuaria diferente. Ao chegar à casa de Joy, em um bairro de Pelotas, muitas pessoas já nos aguardavam. Vizinhos, amigos e os pais deste pequeno guerreiro.
Eles nos aguardavam, pois os garotos, amigos de Joy, e ele, claro, estavam a cerca de 20 metros dali. Um campinho daqueles que todo o garoto um dia já jogou. Traves de madeira, buracos para todos os lados e um monte de meninos correndo atrás de uma bola suja de barro das partidas com chuva, diferente daquele lindo dia de sol.
Um dos meninos se destacava. Cabeça erguida, visão de jogo, bom passe e gol. Até aqui nada demais. Afinal, muitos garotos são bons de bola. A diferença é que este garoto, destaque entre os 12 que jogavam no campinho, não tinha uma das pernas. Era o Joy.
Na entrevista com os pais, evidentemente, um clima de comoção tomou conta da sala da casa simples. Pai e mãe lembraram de muitos detalhes de uma pequena vida de superação. Frases como “mãe, não vou parar de jogar futebol com meus amigos só porquê perdi uma perna” ou “não chora pai, nós todos vamos vencer juntos”.
Na conversa com o Joy percebi um menino tímido. Talvez as luzes e o microfone assustassem um pouco. Mesmo assim houve um clima de consternação de todos que presenciaram a cena. O ponto forte, no entanto, foi quando abordei em uma pergunta que ele entraria com os ídolos no gramado da baixada (como é conhecido o Estádio Bento Freitas). Joy respondeu: “Acho que tenho vergonha”.
Sem vergonha de comemorar
O reencontro com Joy foi no gramado do estádio Bento Freitas, em um domingo de arquibancadas lotadas. O menino estava lá com um grande sorriso ao lado do pai e do seu melhor amigo. Todo vestido com as cores do Inter foi aproveitando cada momento. Bateu fotos, pegou autógrafos e realizou um sonho.
A fila de jogadores do Inter se preparavam para entrar em campo. Joy queria ao lado do capitão Fernandão. Mas como um outro menino acabou pegando a mão do camisa nove colorado, o menino de 10 anos deu um sorriso e passou para o lado de Iarley. Passos firmes com suas muletas até o local onde estava a torcida do Internacional. E para lá que Jhonathan foi, depois.
E ele pode comemorar muito. Claro que eu torcia por uma vitória xavante, afinal temos de valorizar os clubes da cidade que trabalhamos. Só que, em uma partida irreparável, o Internacional aplicou cinco a zero no Brasil. E o Joy pode comemorar seis vezes. Isso pois, Marcão, do Inter, autor de dois gols na partida, doou sua camisa número seis para o pequeno campeão.
Hoje, tempo depois, resolvi resgatar um pouco daqueles dois dias maravilhosos. Se você, Joy, comemorou muito com o Inter. Até hoje comemoro de poder fazer parte de um pouquinho da tua linda história. Obrigado, meu amigo. Mas acabo de me emocionar, mais uma vez, e vou parar de escrever.
Até a próxima...